O preço das ações realmente importa na hora da compra?

por Miguel Abboud
25/11/2021

Uma análise sobre esta eterna discussão

"O preço das ações realmente importa na hora da compra?", talvez esta seja a pergunta que mais divide opiniões dentro de grupos e fóruns de discussão voltados a assuntos do mercado financeiro, muitas pessoas defendem arduamente seus modos de pensar em relação a qual seria a melhor estratégia de alocação de suas carteiras para um melhor resultado no longo prazo.

 

Mesmo sabendo que no final das contas tudo no mercado de ações está voltado para a correlação de risco e retorno, entender sobre o mercado e suas diversas abordagens é uma parte importante do repertório de qualquer bom investidor, sabendo que na maioria das vezes não se trata necessariamente da complexidade de sua estratégia, mas de sua eficiência em ser aplicada em situações reais, precisamos buscar por relatos e conselhos de investidores mais experientes que já testaram diversas teorias e já criaram modelos que podem ser facilmente aplicados por qualquer um.

 

Vamos separar este assunto em duas partes, a que estamos apresentando agora irá fornecer teorias e argumentos de grandes investidores que assumidamente acreditam na eficiência de uma estratégia que se beneficia da ineficiência de precificação de ativos no mercado (práticas que comprovam a importância do preço na hora da compra), assim como em um artigo separado iremos apresentar outras teorias que evidenciem a não importância do preço na hora da compra (clique aqui para conhecer as teorias e estratégias onde o preço não importa).

 

Para entender sobre as melhores abordagens e estratégias precisamos nos espelhar nos conselhos dos maiores e melhores investidores que já existiram, aqui está uma lista dos melhores investidores com suas teses e opiniões:

 

[Tese] Benjamin Graham e o Value Investing:


Benjamin é conhecido pelo mercado com o pai do Value Investing, uma metodologia de sua autoria que foi extremamente destoante do comum quando apresentada na década de 1940, sua metodologia de análise julgava as ações próprias ou não a serem compradas de acordo com seus preços em relação ao seu valor intrínseco (valor real dos ativos da companhia).

 

Uma vez que identificado o valor intrínseco de uma ação através de sua metodologia de análise em conjunto da aplicação de uma "margem de segurança" seria possível identificar o melhor momento de compra para uma ação, independente da natureza de sua operação, valor continuaria sendo valor.

 

Como identificar o valor intrínseco?

 

Para se identificar o valor intrínseco de uma ação, podem ser utilizados diversos métodos, desde técnicas mais simples até às mais complexas, mas a tese permanece simples em sua essência: a empresa deve se pagar dentro de um prazo específico, seja ele de 5, 10 ou 15 anos, o período de tempo da análise vai depender da sua expectativa de ganhos em relação ao ativo, quanto mais rápido você desejar ser pago por um investimento mais risco você receberá em troca.

 

Para reconhecer se a empresa irá se pagar você deve identificar os fluxos de caixa futuros que serão gerados a partir da operação, para fazer isso você deve criar uma projeção de fluxos futuros levando em consideração que os fluxos passados irão permanecer inalterados.

 

Uma das melhores formas de encontrar a geração de fluxos de caixa é encontrando o Fluxo de Caixa Livre, que pode ser encontrado nos relatórios contábeis a partir da seguinte equação:

 

Encontrando o fluxo de caixa livre:


Para encontrar o devido fluxo de caixa será necessário abrir os relatórios contábeis e encontrar o FCO (Fluxo de caixa operacional) da empresa que dentro do relatório representa o número mais aproximado possível da geração de caixa naquele período, entretanto existem alguns valores que ainda precisarão ser subtraídos para refinar esse fluxo de caixa, como as despesas para manter a operação que podem ser encontradas no CAPEX.

(+) FCO

(-) CAPEX

(=) Fluxo de caixa livre

 

Para calcular você deve projetar esses fluxos com mantendo as taxas de crescimento passadas e descontá-los pelo custo do dinheiro no tempo em que se está projetando, essa taxa de desconto depende do método mas ela se baseia em descontar o valor a partir do seu custo de oportunidade (O custo de oportunidade pode ser a taxa básica de juros, o custo de capital de terceiros, o custo da dívida, ou uma taxa fictícia que melhor represente o custo de oportunidade individual do investidor ou até mesmo uma mistura desses fatores "WACC").

 

O preço das ações realmente importa na hora da compra?

 

Margem de segurança


Identificando esses saldos futuros você terá em mãos o valor a ser recebido pela empresa no prazo estabelecido e para saber se é hora de comprar ou não você deve estabelecer uma margem de segurança para a compra, a margem de segurança é um desconto em relação ao valor intrínseco da ação.

 

Basicamente, a margem de segurança é o mínimo desconto adicional que Graham aplicava sobre um ativo que ele entendia que já estava subvalorizado, a fim de se proteger caso eventos inesperados acontecessem e derrubassem a ação ainda mais, quanto maior essa margem, mais segurança você terá em comprar o ativo.

 

O preço das ações realmente importa na hora da compra?

 

A seleção do desconto utilizado na margem de segurança vai depender de dois fatores: O risco da companhia e o grau de experiência do investidor, quanto mais arriscada a companhia maior deverá ser a margem de segurança, assim como quanto menor for a experiência do investidor maior deverá ser a margem de segurança.

 

Linha Branca: Preço do ativo

Linha Vermelha: Valor intrínseco

Linha Verde: Margem de segurança

 

O preço das ações realmente importa na hora da compra?

 

De fato, essa é uma forma muito lógica e realista de se analisar uma ação, podemos dizer que essa é uma ótica que quase nos comprova a eficiência de se considerar o preço de entrada na hora de comprar uma ação.

 

Se você ainda não está convencido em relação a ideia de que o preço importa, podemos ir ainda mais fundo nessa tese, então irei apresentar em seguida um método criado por um aluno de Benjamin Graham (o pai do Value investing) que refinou sua estratégia base até um ponto extremo, essa tese que irei apresentar em seguida é o Deep Value (Value Investing ao extremo) criada por Warren Buffett, que até hoje é um dos homens mais ricos do mundo e de fato um excepcional investidor.

 

Está com dúvida? Fale agora com um dos nossos assessores de investimentos.

 

[Tese] Warren Buffett e a "Bituca" de Cigarro (Deep Value):

 

Com certeza o mais famoso desta lista, Warren Buffett é o investidor que até hoje mais difundiu a ideia de que o preço realmente importa na hora da compra, constatando que devemos sempre comprar ações com base na análise de seu valor intrínseco, uma estratégia muito inteligente deste investidor e que comprovadamente rendeu muito dinheiro a sua empresa com o passar dos anos é o método "Deep Value" que pode ser considerado um "Value Investing" ao extremo, não só considerando os fluxos de caixa futuros a serem adquiridos pela empresam, mas dando mais importância ainda aos ativos reais e já presentes dentro da companhia, sendo que o objetivo da estratégia é "comprar 1 dólar por 50 centavos" nas palavras do próprio Buffett.

 

O que seria uma empresa interessante aos olhos de um investidor adepto ao Deep Value?

 

O princípio desse método de Stock Picking (ou seleção de ativo) se justifica a partir da premissa de comprar ativo que no caso de uma liquidação total de sua operação seja distribuído mais capital a seus acionistas do que foi usado na compra de suas cotas.

 

Um método simples de se identificar essas empresas é a partir da leitura de seu Balanço Patrimonial, que se encontra disponível no site de relacionamento de investidores da companhia assim como nos registros da CVM.

 

Ao abrir o balanço patrimonial devemos procurar por valores acima do valor de mercado da companhia (que pode ser identificado a partir do número de ações da empresa multiplicado pelo valor da ação).

 

E de quais valores estamos falando? A princípio um bom indicador poderia ser o Patrimônio Líquido da companhia, que representa o valor que a empresa possuí em ativos se descontar todos os passivos da operação, entretanto, que ativos seriam esses? Talvez esses ativos sejam maquinário, estoques, imóveis, patentes, recebíveis e talvez até mesmo dinheiro em caixa, logo, como não sabemos a procedência destes ativos não temos uma noção real da solvência desses ativos no mercado real e se não sabemos a real liquidez desses ativos não temos a certeza exata do valor que de fato conseguiremos extrair de uma possível liquidação total desses ativos, assim como o tempo de liquidação até a distribuição do capital.

 

Então que segurança de fato existe nessa estratégia? Bom... ninguém disse que não haveria riscos.

 

Os riscos dessa estratégia podem ser reduzidos se houver uma pesquisa minuciosa em relação aos ativos da empresa, se esses ativos possuírem alta liquidez você terá menos riscos, se a liquidez for baixa, haverá mais risco, da mesma forma se o ativo se tratar de uma empresa com operações financeiras será importante verificar se existem compromissos fiduciários (sinistro do seguro, débito de saldo em conta etc.) que possam ser exercidos futuramente pelos clientes.

  

Exemplo 1:

 

O preço das ações realmente importa na hora da compra?

 

Exemplo 2:

 

O preço das ações realmente importa na hora da compra?

 

Exemplo 3:

 

O preço das ações realmente importa na hora da compra?

 

Entretanto não podemos negar que a ideia de comprar 1 Dólar por 50 centavos é válida e extremamente lógica.

 

Parafraseando o próprio Warren Buffett: Essa é a estratégia da "bituca" de cigarro! Você está andando na rua e vê uma "bituca" de cigarro que recém foi jogada na rua, um cigarro que foi fumado até quase chegar no filtro e você percebe que ainda dá para dar mais uma tragada, então você pega o cigarro do chão, dá sua última tragada e o descarta, é nojento, mas é grátis!

 

Vale lembrar que essa estratégia era comumente aplicada a muito tempo atrás na bolsa de valores norte americana e com o passar dos tempos essas empresas adequadas para a aplicação do Deep Value foram se tornando cada vez mais raras.

 

Alguns dos motivos que influenciaram isso foi o aumento do número de investidores individuais na bolsa de valores, maior fiscalização e exigências de padronização de relatórios e melhores condições econômicas para se investir, esses fatores diminuíram o risco percebido de se investir nessas empresas e as valorizaram por conta das melhores condições de mercado, as empresas próprias para o Deep Value deixaram aos poucos de serem comuns.

 

Warren Buffett e seu sócio Charlie Munger deixaram de utilizar essa estratégia pelos motivos acima e por se tratar geralmente de empresas de baixa capitalização, não se tornando mais tão interessantes para o grande portfólio dos dois investidores.

 

Por fim, mesmo que os exemplos acima nos deem uma boa ideia da eficiência da análise de preços em relação ao valor real das empresas devemos lembrar que qualquer método não nos dá a real certeza dos reais recebimentos que teremos no futuro, nas palavras de Buffett esses métodos são um "Educated Guess", traduzindo ao pé da letra "uma aposta educada", esses métodos nos dão um parâmetro real de como extrair com precisão e lógica a rentabilidade dos ativos a serem comprados, validando dessa forma a existência da importância do preço na hora da compra.

 

Caso queira conhecer os métodos de investimento que não dependem do preço da ação na hora da compra você pode acessar este artigo clicando aqui.

 

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